Como se tornou possível produzir em casa com qualidade?

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Imagem de Jeff Juit por Pixabay

Dor de cabeça para músicos de gerações mais antigas, a produção musical vem se tornando mais acessível para o profissional a cada dia. Esse processo não é uma novidade, mas apenas algo que vem se aprimorando.

Em outra época, produzir uma música era uma tarefa cara e poucos podiam arcar com os custos. Produzir uma faixa poderia custar próximo à casa de alguns milhares, pois os recursos computacionais ainda eram escassos. O músico tinha que procurar um estúdio próximo, apresentar suas composições e torcer para que o material interessasse ao produtor, para que os custos caíssem.

Com avanço da tecnologia e o desenvolvimento cada vez mais amplo da engenharia eletrônica, com base na física moderna, esse cenário alterou-se completamente. Produtores e músicos independentes começaram a participar mais do mercado com estúdios caseiros, os conhecidos home studios, isso ainda nos anos 1990.

Com a consolidação do áudio digital, as gravadoras viram seu poder diminuir (por mais que ainda tenho influência nas principais mídias e o jabá continue em prática) e os home studios participam cada vez mais do mercado fonográfico. Já há músicos que produzem faixas sem mesmo ter um estúdio, com o computador, softwares e muita garra.

Home studios alcançaram o padrão de qualidade alto fornecido pelas gravadoras. Obviamente, não é ainda tarefa para quem tem pouco dinheiro a investir, mas está longe dos milhares de reais exigidos para produzir uma música.

Um exemplo de sucesso absoluto vindo de home studio é o álbum “Jagged Little Pill”, de Alanis Morissete considerado um dos melhores álbuns dos anos 1990, vencedor de diversos prêmios. Segundo Glen Ballard, produtor do disco, o álbum foi concebido praticamente todo dentro de seu Home Studio, nas palavras do próprio, 75% dele. As composições, a gaita bem presente, as guitarras… as ideias surgiram e foram registradas ali. Depois restou aos outros músicos a gravação das baterias e eventuais floreios, já que instrumentistas de peso participaram do álbum.

Não há mais motivos para rejeição às gravações caseiras, elas podem soar tão profissionais quanto as geradas por grandes estúdios. A seguir apresento alguns dos responsáveis por essa revolução no mercado do áudio:

1) Migração do analógico para o digital

A era analógica era muito mais trabalhosa do que a atual era digital. E essa visão não se restringe ao formato de áudio, à compressão como MP3 ou WMA. Ela é muito mais ampla: praticamente todo o processo da produção de uma faixa tornou-se digital.

Essencialmente analógica ainda é a captação do áudio através do uso de microfones. O tratamento sonoro é essencialmente digital. Em épocas anteriores, o processamento de efeitos se dava de maneira analógica. A voz “molhada” dos anos 1970 e 1980 principalmente, aquelas com bastante uso de delay e reverb eram um tanto trabalhosas no que diz respeito a sua produção. O desenvolvimento de plug-ins transformou essa ação em meros cliques.

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2) Gravadores Portáteis de alta qualidade

Estúdio de bolso é o apelido que vêm recebendo esses aparelhos. Com áudio em alta resolução, loopings de baterias já prontos, microfones embutidos muitas vezes e com número razoável de pistas, os gravadores digitais caíram nas graças de muitos músicos. Para quem tem um orçamento pequeno, é uma excelente opção. Além disso, muitos funcionam como placa de áudio.

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3) Era dos instrumentos virtuais

Sons de orquestra em alta resolução, módulos de som de pianos conhecidos como o de Elton John… Essas são algumas das possibilidades de Samples que podemos encontrar nas produções fonográficas atuais. Muito usados em trilhas sonoras e músicas eletrônicas, a sonoridade dos instrumentos virtuais é apreciada até pelos mais conservadores com áudio. Bibliotecas de sons poderosas fazem parte dos HDs dos computadores dos estúdios caseiros.

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4) Ficheiros MIDI

Por mais que soe estranho citar algo criado em 1983 em pleno 2019, o MIDI é o elemento pioneiro de toda a revolução digital que o seguiria posteriormente. É por meio dele que hoje são feitos sequenciamentos de bateria, programação de instrumentos virtuais e outras aplicações.

Além disso, MIDI é um arquivo muito leve e contém informações de execução apenas. Por mais que a saída desejada ao utilizá-lo seja escutar a execução de um áudio em algum instrumento, o MIDI não transmite áudio. O que acabou se tornando uma alternativa bastante interessante no início da era virtual, quando era bastante complicado ter um fluxo de dados intenso como há hoje.

Arquivos levíssimos, é possível gravar um sequenciamento MIDI em casa e enviá-lo para outro local onde a pessoa poderá abrir essa informação e executá-la em sua DAW, com a saída em outro instrumento virtual diferente daquele onde fora gravado anteriormente, pois é disso que se trata o sequenciamento: Informação binária quase algorítmica, transmitindo dados de dinâmica (pianíssimo, fortíssimo etc), altura da nota e outras coisas relevantes. Não há espaço neste texto para explicar suas diferentes funções, mas é um assunto que merece abordagem futura, cujo estudo é essencial para qualquer músico.

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Eduardo Nepomuceno

Eduardo Nepomuceno, carioca, é músico, produtor musical e escritor. Como músico, começou a aprender guitarra aos 13 anos. Estudou o instrumento na Escola de música Villa Lobos. Além de guitarrista, também aprendeu a tocar teclado e gaita, além de ter aprendido um pouco de baixo e violino. Também interessou-se por canto no fim da adolescência. Já estudara um pouco de técnica vocal na Villa Lobos, quando começou a apreciar coral. Depois estudou canto popular na Escola Elite Musical e depois seguiu sendo treinado pelo cantor Pedro Calheiros, filho de Rinaldo Calheiros, conhecido como "a voz que emociona". Nos treinos também dedicou-se ao canto lírico influenciado pelo gosto do professor por óperas italianas. Estudou produção musical na Escola de áudio Home Studio, do professor e músico Sérgio Izeckson. Passou a utilizar os conhecimentos adquiridos no curso para fazer gravações caseiras  e trabalhar com produções de baixo custo para músicos independentes. Já gravou músicos do estilo gospel, vocais usados para dublagens, além de ter trabalhado com canto popular e ensino de teoria musical. Além disso, também licenciou músicas na pequena carreira. Atualmente está se dedicando à gravação do seu projeto solo "O valor do primeiro ensaio", que terá músicas sonoras feitas essencialmente ao piano e com auxílio de guitarras, violão, baixo, orquestras programadas e cordas, mas sem elementos rítmicos como bateria. Também está escrevendo seus dois primeiros livros: "Artes de amor e guerra" e "Ópera das dores do mundo". Na área da escrita, já escreveu redações e colunas para um ramo do PN Record, antigo projeto da emissora. Atualmente publica seus textos no próprio blog. Entre seus assuntos abordados estão políticas de financiamento cultural, análises críticas artísticas e didática de áudio.

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