Adam Behr, Newcastle University

Poucos artistas escancararam as contradições da música popular como Dr John, que faleceu em 6 de junho, aos 77 anos. O músico nascido em Nova Orleans desafiou os rótulos – sua música passeia entre blues, jazz, boogie-woogie e rock and roll. Ao longo de mais de meio século, ele dividiu palcos e estúdios com a aristocracia do rock, como The Rolling Stones e The Band, e também com lendas do blues como B.B. King e Etta James, mas não se deixou capturar por nenhum dos dois campos.

Com Dr John, até mesmo os fatos mais concretos estavam envoltos em ambiguidade. Seu nome artístico, “Dr John the Night Tripper”, era um personagem criado por Mac – Malcolm de batismo – Rebennack. Até mesmo sua data de nascimento foi difícil de determinar e só foi estabelecida como sendo em 1941 no ano passado, quando o jornal de Nova Orleans The Times-Picayune desenterrou sua verdadeira data de nascimento em seus arquivos. Ele havia mentido sobre sua idade quando era um jovem prodígio, para contornar as restrições de idade e conseguir tocar nos clubes. A partir daí a carreira de Rebennack exemplificou e distorceu a chamada autenticidade musical. O Dr John era tanto uma encenação inventada quanto um personagem que Rebennack usava naturalmente dentro e fora do palco. Um perfil do New York Times observou que conversar com ele era “uma aventura”, graças à sua propensão a palavras inventadas em um resmungar que era marca registrada, e a seu modo evasivo.

A pessoa no personagem

Autenticidade – aquela noção do que é “real” – é um conceito escorregadio na música popular. Um senso de credibilidade ou (não necessariamente a mesma coisa) honestidade é indispensável. Por outro lado, a “autenticidade” também é a moeda do sistema de marketing musical – para muitas pessoas, é o que dá ao produto um atrativo. Para complicar ainda mais, uma certa aura de mistério pode ser, paradoxalmente, um marcador de individualidade e pode passar a ideia de que o artista está sendo fiel a a si mesmo.

Para Dr John, tudo era uma combinação de teatro, musicalidade e suas próprias idiossincrasias. Havia profundo conhecimento dos gêneros e, simultaneamente, uma abordagem “calculista” de projetar um mundo musical delineado enquanto trabalhava nos domínios da música comercial (uma técnica também adotada por nomes como Tom Waits, Prince e, sem dúvida, Madonna).

O personagem, derivado de seu interesse pelo vodu, não era originalmente destinado a Rebennack. Ele foi baseado em um praticante de vodu do século 19, Dr. John Monatee, originário do Senegal, e foi inicialmente desenvolvido para o amigo de Rebennack e seu colega músico Ronnie Barron, que abandonou a banda. Rebennack tornou-se o homem de frente, habitando a persona que definiria sua imagem pública.

Dito isto, sua história pessoal e sua história musical foram bastante ricas em incidentes. Embora tenha tido fama como pianista, seu primeiro instrumento foi a guitarra. Depois de perder parte do dedo anelar da mão esquerda por causa de um tiro quando interveio em uma briga em Jacksonville, na Flórida, para ajudar Barron, que estava sendo espancado, ele trocou de instrumentos – primeiro para o baixo e depois para piano.

Apesar de emergir de uma tradição de músicos de Nova Orleans – Professor Longhair, Allen Toussaint, James Booker – Rebennack passou grande parte de sua carreira afastado da cidade. Como seu personagem “Night Tripper”, ele tinha um histórico de viver nas sombras, envolvido com as drogas e a prostituição que cercavam o ambiente de clubes de Nova Orleans nos anos 50 e 60. Ele teve repetidas recaídas no vício em heroína antes de finalmente largar a droga em 1989. Após uma prisão por posse de drogas e um período na prisão federal, ele foi aconselhado a deixar a cidade durante uma ofensiva sobre a cena musical do procurador Jim Garrison (mais lembrado por suas teorias conspiratórias a respeito do assassinato de Kennedy).

Sendo assim, sua carreira se desenvolveu em Los Angeles, inicialmente como parte do grupo de músicos de estúdio de elite conhecidos como “Wrecking Crew“, que inclui gravações para Sonny e Cher, Canned Heat e Frank Zappa. Seu primeiro álbum solo, Gris Gris, foi gravado em sobras de horário do estúdio durante as sessões de Sonny e Cher.

Rebennack trabalhou no cruzamento entre tradição e inovação. Gris Gris, que homenageia um amuleto vodu, deu o tom para um catálogo desenhado sobre um caldeirão de influências, fundindo o blues de Nova Orleans e funk com elementos de rock psicodélico. Tendo estabelecido esse modelo, o elemento teatral, psicodélico e vodu de seu show lentamente abriu caminho para uma abordagem mais tradicional, exemplificada por “Dr. John’s Gumbo” – um conjunto de versões de clássicos de Nova Orleans, como Iko Iko.

Quintessencialmente New Orleans

Em última análise, a chave para a identidade musical de Dr John é menos uma questão de gênero, ou de “personagem”, do que uma questão de geografia. Sua carreira discográfica foi prolífica – mais de 40 álbuns – e aclamada. Ele foi incluído no Hall da Fama do Rock and Roll em 2011 e recebeu seis prêmios Grammy, nas categorias de jazz, blues, rock e pop.

Ele conseguiu combinar “autenticidade” em termos de ser fiel a uma tradição e lugar, ao mesmo tempo em que teve – através da expansão do alcance dessa tradição – uma voz musical única. Quintessencialmente “New Orleans”, ele enfileirou uma série de outras tradições musicais americanas através desse som, ao mesmo tempo em que incorporou o senso rítmico e melódico de Nova Orleans à cultura musical popular mais ampla, apimentando sua produção com seus distintos jogos de palavras e gírias. De fato, suas próprias cadências musicais e pessoais passaram se confundir com Nova Orleans no imaginário cultural mais amplo.

O som e a imagem de Dr John permearam a cultura popular. O Dr. Teeth, da banda Muppets, foi inspirado nele e seus melhores dias em termos de financeiros vieram de jingles publicitários – para Popeye’s Chicken, Oreos cookies e outros. Sua voz também embelezou o tema My Opiniation para a sitcom Blossom, que não era grande coisa (mas muito popular). Quando a Disney precisou exemplificar um som de Nova Orleans na música “Down in New Orleans” em A Princesa e o Sapo, ele foi a escolha óbvia. Como Randy Newman – compositor da música e contemporâneo de Rebbenack na cena dos anos 1960 – disse:

QUEREM a VOZ dele, O QUE NÃO É UMA IDEIA ruim SE for para tocar NOVA ORLEanS. Ele é autêntico em todos os sentidos.

O som das ruas

Sua ênfase em Nova Orleans tornou-se, talvez, mais explícita nos últimos anos. Há algo na adversidade que pode criar um senso de identidade. A devastação causada pelo furacão Katrina em 2005 e, particularmente, a sensação de que os moradores da cidade haviam sido abandonados pelas autoridades energizaram álbuns incluindo Seppiana Herricane, de 2005, e City That Care Forgot, de 2008.

Suas preocupações espelhavam a relação entre o tecido social de Nova Orleans e sua herança musical. A recuperação da cidade depois do furacão, por exemplo, foi prejudicada por seus efeitos nas second lines – os desfiles liderados por tambores que acompanham os cortejos fúnebres. A gentrificação trouxe reclamações sobre o barulho e, dez anos depois do furacão, Dr John criticou as autoridades do governo local que tentavam desencorajar os músicos a marchar na second line.

quero dizer, estão tentando levar os caras das bandas a não MARCHAR NAS second lines. ISSO É RIDÍCULO. antes não era assim… DE todo modo, AS second lines SÃO VITAiS À RECUPERAÇÃO DE NOVA ORLEans; elas SÃO a cura QUE VEM COM O luto.

Seu legado, portanto, é internacional e intensamente local. Criando um som pessoal, indelevelmente estampado em uma carreira de gravação reconhecida mundialmente, ele também atuou como o portador da tocha da tradição de Nova Orleans por décadas. Apesar de seus problemas com a lei, ele acabou sendo lembrado pela Prefeitura, recebendo uma homenagem do Conselho da Cidade de Nova Orleans por seu aniversário, incorretamente designado como 21 de novembro, o “Dr. John Day“.

O governador da Louisiana, John Bel Edwards, acrescentou seu “reconhecimento por inúmeras contribuições musicais que incorporaram a cultura do estado de Nova Orleans e arredores e por comemorar 77 anos na indústria da música”. Mas sua música era, literalmente, das ruas, como a second line amplamente divulgada que se formou em Nova Orleans para homenagear o dia 7 de junho.The Conversation

Adam Behr, Lecturer in Popular and Contemporary Music, Newcastle University

Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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