Guia Miles Davis: 5 discos para começar na obra do trompetista

Em 28 de setembro deste ano completaram-se 27 anos da morte de Miles Davis.

Para conhecer um pouco mais sobre a obra do trompetista, famoso por trazer uma nova característica ao instrumento (notas mais longas, novas possibilidades com flugelhorn, cruzamento com vários outros ritmos etc), preparei uma lista dos 5 discos essenciais para ter um breve panorama de sua importância dentro do jazz. Cada disco representa uma fase distinta de Miles. Serve como pequena cartilha para perceber a abrangência de sua obra, do cool-jazz ao fusion. Confira:

Birth of The Cool (1949-50)

No final dos anos 1940, Miles Davis procurava novas formas de se expressar após tocar com Charlie Parker, a quem considerava a maior inspiração de sua carreira. Enquanto o bebop dividia as opiniões de público e crítica, Miles pegou carona no movimento do cool-jazz que florescia na Costa Oeste. Ao lado dos saxofonistas Lee Konitz e Gerry Mulligan (compositor da maioria dos temas deste álbum), Miles contou com apoio de um noneto e lançou um LP bem dinâmico, talvez mais “quente” do que o nome cool possa supor. Temas como “Moon Dreams” e “Deception” mostravam que o trompete também tinha espaço fora da onda de extremo virtuosismo do bebop. Um álbum importante para dar pistas do direcionamento que Miles procurava desde que começou a tocar jazz – e que mostrou, também, seu potencial como bandleader, uma de suas maiores virtudes como jazzista.

Porgy and Bess (1958)

Considerado o “álbum mais difícil que já gravei”, segundo o próprio Miles, Porgy and Bess representa o auge da parceria com o arranjador e maestro Gil Evans. A dupla trabalha com notas complicadas, exigindo dinamismo e experiência dos instrumentistas de estúdio. Evans era absolutamente detalhista, e não poupou Miles de encontrar o tom certo para as justaposições de “Gone Gone Gone” e “Prayer (Oh Doctor Jesus)”. Assim como Miles Ahead (1957), primeiro álbum que sela essa parceria, Porgy and Bess deu um novo senso melódico ao trompetista. Perceba as extensões das notas de Miles: ele diversifica os tons para expressar sentimentos misteriosos, às vezes nostálgicos, às vezes melancólicos.

Caso se interesse mais por essa parceria grandiosa entre Miles e Evans, recomendo ir atrás de Sketches of Spain (1960).

Kind of Blue (1959)

Não é à toa que Kind of Blue tornou-se o disco mais celebrado de Miles Davis. Depois de todo o trabalhão de Porgy and Bess, ele procurava voltar ao estúdio de forma mais solta. Já em Milestones, o trompetista introduziu um conceito apresentado por George Russell chamado de modalismo, em que escrevia as notas e pedia para que seus instrumentistas improvisassem a partir de escalas. Isso permitia improvisar de forma mais fluida dentro de um determinado tema. Mas foi em Kind of Blue, ao rememorar parte da infância em Austin, que Miles aprimorou essa técnica. Ao lado de músicos excepcionais do calibre de John Coltrane (sax-tenor), Cannonball Adderley (sax-alto) e Bill Evans (piano), chegou a um resultado surpreendente: cada peça do disco tem seu próprio ciclo melódico, sempre de fácil assimilação. De “So What” a “Flamenco Sketches”, Miles pincelou aquele que muitos consideram a primeira grande obra-prima do jazz.

Bitches Brew (1970)

Quando formou o segundo grande quinteto, Miles Davis percebeu que poderia usar a eletrificação sonora a favor do jazz. Herbie Hancock e, depois, Chick Corea alterariam a forma com que encaramos o piano, e Wayne Shorter daria uma nova perspectiva ao blues tanto no sax-soprano, quanto no sax-tenor. Junte a isso o interesse por agrupar elementos da música do mundo, das guitarras do rock à percussão brasileira, e tem-se um breve panorama da ambição por trás de Bitches Brew – que também trouxe outros músicos em sua extensa lista de créditos, que inclui John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (baixo) e até o percussionista brasileiro Airto Moreira (em “Feio”). Embora o conceito de fusion venha do pioneirismo de In a Silent Way (1969), aqui Miles Davis extrapola a conexão com estilos e instrumentos até então estranhos ao mundo do jazz.

Tutu (1986)

Miles Davis passou por uma fase complicada na segunda metade dos anos 1970, por problemas com heroína. Seu retorno à inventividade se deu com The Man With the Horn (1981), mas a música pop novamente surtiria efeito em suas influências pouco tempo depois, com Tutu. Numa época em que Prince e Michael Jackson disputavam o topo das paradas, Miles contou com o importante auxílio do produtor Marcus Miller, levando seu estilo imperioso no trompete para o funk e o R&B. Temas como “Tomaas”, “Portia” e “Full Nelson” ajudaram mais uma vez a aproximar o jazz dos mais jovens. A versão deluxe deste álbum conta com uma releitura do trompetista de “Human Nature”, desde aquela época um clássico de Michael Jackson.

Tiago-Ferreira
Tiago Ferreira
Na Mira do Groove | [email protected] | Website

Editor responsável do Na Mira do Groove, fã de jazz, hip hop, samba, rock, enfim, música urbana em geral.

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