Raul de Souza e o trombone que ressoa o Brasil

Falar de trombone, no Brasil, é ter Raul de Souza como referência-mor. Em 65 anos de atividade, este carioca começou na cena em Curitiba tocando o rudimentar trombone-de-pisto, até conhecer Sérgio Mendes e, posteriormente, tocar com o percussionista Airto Moreira e o lendário saxofonista Sonny Rollins.

Sua principal influência foi dar um som mais eletrificado ao trombone. Tocou muita bossa nova, samba e baião antes de começar a trajetória solo com À Vontade Mesmo (1965). Quando abraçou o fusion, soube como dar balanço a um instrumento tão pesado – algo que pode ser apreciado de forma sublime em Colors (1974), que abre com uma inspirada versão de “Nana” (Moacir Santos).

Raul de Souza também foi influenciado pela disco-music. Na verdade, ajudou a trazê-la para o universo jazzístico, absorvendo a energia das pistas para ressignificar o som do trombone. O grave característico é acompanhado de um balanço envolvente, vide o que ele nos entrega em ‘Til Tomorrow Comes (1979) ou no anterior Don’t Ask My Neighbours (1978), um dos mais marcantes com o instrumento que inventou, souzabone, um trombone elétrico de quatro válvulas.

Aos 84 anos, o músico é daqueles brasileiros de grande prestígio internacional e pouco reconhecimento em seu local de origem. Para se ter uma ideia, o crítico de jazz alemão Joachim-Ernst Berendt comparou seu sucesso e inovação no trombone a de Tommy Dorsey, que revolucionou o jazz nos anos 1930 com sua big band ao propor um som mais “gentil”.

Blue Voyage: novo disco de Raul de Souza

Com o novo disco, Blue Voyage, lançado em dezembro pelo Selo Sesc, Raul de Souza sela um reencontro com as raízes da música brasileira, algo que domina há muito tempo. É a oportunidade de perceber como um instrumento pesado e de som grave se incorpora às diversas expressões populares de nossa música. (O álbum foi listado como um dos melhores lançamentos de jazz de 2018 no Na Mira do Groove.)

Logo de cara, em “Vila Mariana”, Raul contrasta a limpidez dos pianos de Leo Montana e Alex Correa com um ritmo ágil e marcante. Seu balanço latino parece nos transportar para a música de rua de Cuba, em meio à alegria e muita festança.

Em todas essas décadas em atividade, Raul de Souza soube como trazer alegria de formas diferentes para o trombone. Seja ao esticar mais as notas ou misturar solo e ritmo, Raul propôs versatilidade numa época em que os bandleaders geralmente empunhavam saxofone ou trompete. Em pleno 2018, isso lhe garante segurança para criar melodias apaixonantes – como faz em “St. Martin” – e propor uma nova sofisticação ao samba, com “Chegada”.

É comum Raul de Souza refazer clássicos brasileiros com uma roupagem ainda mais caliente, mas em Blue Voyage ele preferiu investir em novas composições e amenizar ainda mais a freneticidade de tempos idos. Em música que homenageia Sonny Rollins, por exemplo, ele assume o sax-tenor num momento totalmente blueseiro, revelando mais uma influência de peso.

“Primavera em Paris” é outra em que opta por uma abordagem mais sentimental. Sua melodia pacífica celebra a cidade que escolheu para morar há mais de 20 anos. “Não existe a menor possibilidade de eu voltar a morar no Brasil”, chegou a dizer o músico à Folha de S. Paulo – isso em 1999!

“No Brasil, o músico é tratado como uma nuvem passageira, sem respeito algum. Passei muita provação morando aí. Agora, chega. Aqui, trabalho todos os dias tocando em um clube, além de ser chamado para tocar com vários músicos”.

Já consagrado na Europa, Raul de Souza gravou Blue Voyage na sala Maison des Artistes, em Chamonix (França). Mesmo fisicamente distante, o Brasil continua ressoando com força em suas notas de trombone cada vez mais sofisticadas.

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Raul de Souza. Foto de Schorle [CC BY-SA 4.0], de Wikimedia Commons
Tiago-Ferreira
Tiago Ferreira
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Editor responsável do Na Mira do Groove, fã de jazz, hip hop, samba, rock, enfim, música urbana em geral.