Entrevista com Paul Gilbert

Contemple a guitarra elétrica! É isso que um inspirado Paul Gilbert nos diz na capa de seu novo álbum pela Mascot Records. Behold Electric Guitar conquistará seu coração já na terceira faixa, a melódica I Own A Building, que oferece duas faces do disco: o uso frequente do bottleneck exacerba a fluidez de Paul e expande sua expressividade; e outra face é o estilo de composição que trata a música como se ela fosse escrita para um cantor, com muito texto, embora quem cante seja a Ibanez PGM do guitarrista de Illinois com 52 anos de idade.

Uma terceira característica do novo trabalho é a intensa presença de blues-rock em peças como A Snake Just Bit My Toe e Blues For Rabbit. Há outra coisa: como o novo álbum de Yngwie Malmsteen (Blue Lightning, leia mais depois desta entrevista), Behold Electric Guitar foi gravado ao vivo no estúdio, com o mínimo de microfones e sem overdubs em excesso.

Paul Gilbert foi descoberto no início dos anos 80 por Mike Varney em sua coluna mensal na Guitar Player, como havia acontecido antes com Malmsteen. Paul ganhou notoriedade imediata por uma palhetada alternada mortal e uma velocidade digna de um tecladista. Ele se mudou para Los Angeles onde se formou no GIT em 1985 e lá se tornou um jovem professor. Tocou em várias ocasiões no Racer X e no Mr. Big, publicou vídeos educacionais lendários como Intense Rock e Intense Rock II, tem 16 discos solo e inúmeros outros entre bandas e colaborações.

Behold Electric Guitar é um disco que deve ser ouvido várias vezes, com sua mistura de músicas mais virtuosísticas com outras mais melódicas, sempre atravessadas por uma espécie de veia irônica: a de alguém que é grande, mas sabe quando é hora de não levar-se muito a sério.

Olá Paul, seu álbum Behold Electric Guitar tem muito o que oferecer. Parece que você encontrou uma nova inspiração ou um novo método para compor e tocar guitarra: muita técnica e senso melódico…

Paul Gilbert: Behold Electric Guitar é um álbum de músicas instrumentais para guitarra que compus pensando como um cantor. Eu escrevi as letras primeiro e depois as melodias e acordes certos para elas; então eu toquei as linhas vocais com a guitarra. Minha voz tem uma extensão limitada, por isso foi maravilhoso poder usar a guitarra até as notas mais altas. Pude escrever textos “estranhos”, que ninguém nunca conhecerá! Foi útil ter um tecladista na banda, o que me permitiu tocar melodias single note, tendo o total apoio dos acordes.

Sabemos que você se mudou para Portland, Oregon. Por que fez isso e que tipo de cena musical você encontrou lá?

Paul Gilbert: Perde-se muito tempo no carro em Los Angeles. Eu me peguei escrevendo peças como Everybody Use Your God Turnn Signal (em I Can Destroy, 2016) e achei que era hora de mudar para outro lugar. Agora moro em Portland, em um bairro onde posso chegar a quase qualquer lugar a pé ou de bicicleta. Posso fazer algum exercício e respirar ar puro em vez de ficar sentado dentro do carro. Recentemente, me enrosquei nos trilhos do bonde e caí com minha bicicleta. Aí eu aprendi a ficar longe deles! Felizmente minhas mãos estão bem, mas levei um mês para curar os joelhos…

Como, e até que ponto, o projeto de crowdfunding com a PledgeMusic funcionou, se você puder nos contar? Acreditamos que muitos músicos querem saber como financiar a realização de seus projetos musicais.

Paul Gilbert: Gostei do fato de poder me conectar com meu público e compartilhar o processo de criação do álbum. Tudo correu bem com a PledgeMusic, exceto no final. Ao que parece eles são incompetentes, ou maus mesmo, e perderam ou roubaram todo o dinheiro! Fiquei feliz porque o álbum ficou ótimo. E estou feliz por ter conseguido entregar o produto a todos que o compraram com antecedência. O PledgeMusic deveria ter ficado com uma porcentagem do valor arrecadado e me dado o que restou, mas algo deu errado. Nos meus trinta anos de carreira no ramo da música, nunca havia encontrado tantas mentiras e fraudes assim! Não sei como vai acabar, meu empresário está trabalhando nisso… estou muito feliz por estar de volta à Mascot, uma ótima e confiável gravadora!

Você queria que Behold Electric Guitar fosse um disco gravado “one-mic”, com apenas um microfone. Você acha que é possível usar apenas um microfone? Como você e o produtor John Cuniberti fizeram para obter um som tão direto?

Paul Gilbert: Com John, fizemos uma sessão de testes com apenas um microfone enquanto tocávamos um ou outro cover. De fato, o resultado foi ótimo! Mas, depois de ouvir minhas novas músicas, John achou que a música era muito complexa e precisava de mais microfones. Ou talvez o volume fosse muito alto! De qualquer forma, tocamos tudo ao vivo sem overdubs demais, mantendo o som e o espírito que eu queria.

Eu realmente gostei de I Own A Building, uma melodia de sabor pop que parece um pouco “antiga”, e você a toca com intensidade. Você pode nos falar sobre o componente pop da sua música?

Paul Gilbert: Eu cresci ouvindo música pop dos anos 60 e 70. Meus pais tinham quase todos os álbuns dos Beatles. No rádio eu ouvia Elton John, Carole King, The Carpenters, Todd Rundgren, Queen, E.L.O. e Billy Joel. Não ouvi muita música instrumental, exceto a clássica. Acho que foi por isso que demorei tanto para tocar melodias na guitarra: sempre achei que isso era trabalho para um vocalista! Tocando a guitarra como se fosse um cantor, finalmente posso combinar a melodia com o meu melhor instrumento.

No disco, você costuma usar o slide em muitas músicas, dando à guitarra um som pesado e espesso. Olhando para algumas fotos, seu bottleneck parece preso ao cutaway inferior da guitarra…

Paul Gilbert: Na parte debaixo da guitarra há um imã poderoso que mantém no lugar o slide em aço cromado que eu uso. Isso facilita a troca rápida da digitação normal para o slide e vice-versa. O ímã é coberto pelo escudo da guitarra, no qual meu técnico fez um entalhe para impedir que o slide se movesse. Depois de muitas experiências, devo dizer que os ímãs são tão poderosos que não havia necessidade nem do entalhe. As duas guitarras usadas para o disco têm esses ímãs.

O blues é outra característica proeminente do disco. Quais são suas principais influências entre os guitarristas de blues-rock?

Paul Gilbert: Cresci ouvindo guitarristas de rock dos anos 60 e 70, e no estilo deles havia muito blues: Jimmy Page, Jimi Hendrix, Robin Trower, Ritchie Blackmore, Pat Travers, Frank Marino, Angus Young e Billy Gibbons, todos com muito blues no som deles. Até Eddie Van Halen tem um grande blues feel. Só mais tarde ouvi B.B. King, Albert King, Freddie King, Johnny Winter, Magic Sam e Otis Rush. Também devo muito à maneira de tocar sax de Johnny Hodges [nota: solista na orquestra de Duke Ellington].

As partes de guitarra de Havin ‘It foram escritas ou improvisadas?

Paul Gilbert: A introdução e o tema principal foram escritos, mas todos os solos são improvisados. Eu apenas tentei entrar em sintonia com a banda, e… fazer um monte de bends! Toda vez que eu toco essa peça, ele toma um caminho diferente. Muito divertido!

paul-gilbert-com-sua-guitarra-ibanez-signature
Paul Gilbert e sua Ibanez signature. Note o bottleneck preso ao escudo. Foto de Jason Quigley

Em A Herd of Turtles há um texto declamado. É a sua própria voz? O que significa?

Paul Gilbert: Recito um poema meu com sotaque britânico. Tentei usar meu sotaque americano natural, mas não parecia certo; em vez disso, se eu ler com um sotaque tipo Ringo Starr, fica muito melhor. A música é sobre desafios a serem enfrentados e vencidos. As tartarugas do título estão procurando uma vida mais interessante. Os coelhos estão tentando não ser comidos pela raposa. E eu tento tocar apesar de ter sofrido uma perda auditiva acentuada.

Em Sir, You Have to Calm Down, há o ótimo funk da sua banda. Quem são o baixista e o baterista? Li sobre alguém que passou mal durante as sessões…

Paul Gilbert: Em Portland encontrei um ótimo baterista chamado Brian Foxworth. Ele tocou em Blues for Rabbit, Things Can Walk to You e Let That Battery Die. Ele também tinha muitos shows para fazer à noite e, a certa altura, estava tão exausto que desmaiou no estúdio! Mais tarde ele se recuperou, mas eu tinha um tempo muito curto, então perguntei ao engenheiro se ele conhecia outro baterista que pudesse vir no mesmo dia. Este baterista era Reinhardt Melz! É ele quem toca em Sir, You Need to Calm Down, Everywhere That Mary Went e Every Snare Drum. Além do álbum, eu precisava de um baterista para alguns shows, mas Reinhardt não pôde aceitar. Então outro baterista chegou para terminar o álbum e depois sair em turnê comigo. O nome dele é Bill Ray e ele mora em Seattle, a algumas horas de carro de Portland, então ele conseguiu chegar rapidamente e resolveu meus problemas!

Vamos falar sobre os instrumentos. Há muitas fotos com versões diferentes da Ibanez Fireman, seu modelo signature: com captadores humbucking, minihumbucking e single coil. Você realmente usa todas? Em particular, quais guitarras usou em Behold?

Paul Gilbert: Para o álbum, usei duas guitarras: uma Ibanez FRM200, a branca com dois mini-humbucker DiMarzio PG-13, e uma Ibanez FRM150, a vermelha, que foi modificada para ter três DiMarzio PG13s. Estou impressionado com o quão bem esses mini-humbuckers soam!

E os amplificadores e efeitos usados no estúdio? Você monta os pedais em uma pedaleira ou você os usa individualmente? Usa baterias de 9V ou fonte de alimentação?

Paul Gilbert: Para os meus pedais, prefiro um bom adaptador de corrente elétrica! Eu tenho uma pequena pedaleira com Fulltone Deja-Vibe, Xotic AC Booster, Supro Drive e TC Electronic MojoMojo, alimentados por um Voodoo Labs Pedal Power 2 Plus. O amplificador usado no disco foi um combo Marshall 1962 Bluesbreaker 2×12″. Ele ficava bem na minha frente, para que eu pudesse sentir todas as notas com uma boa ressonância do som que eu tocava na guitarra. Não me lembro se usei um wah wah em alguma música… Se usei, foi um Mini Cry Baby da Dunlop Jimi Hendrix.

Então Let That Battery Die não tem nada a ver com uma bateria de pedal. Lembra uma espécie de minueto com guitarra…

Paul Gilbert: Let That Battery Die nasceu como um texto que depois foi cantado pela guitarra. É inspirado em um telefone celular…

Que tipo de hardware e software você usou para gravar?

Paul Gilbert: Usamos o ProTools. Não presto atenção aos microfones e pré-amplificadores, essas são coisas que deixo para os engenheiros de som.

Que tipo de sensações você tem experimentado nesta turnê para clínicas de guitarra? Você está satisfeito com a forma como o público reage às reuniões? (Nota: esta entrevista foi realizada na Itália)

Paul Gilbert: Eu gosto de tocar na Itália! No momento, estou fazendo algumas masterclasses, que são quase como um show, porque toco muito com baixistas e bateristas locais. Entre uma música e outra, paro e explico minhas idéias a respeito da guitarra. Os alunos aprendem algo de bom, mas sou eu quem aprende mais! Toco tanto minhas músicas quanto os covers que me interessam: por exemplo, para esta turnê, peças de Gary Moore, Yes, Scorpions, Rainbow e Beatles. Até o tema do filme Rocky! Eu deveria voltar para a Europa com a minha banda em outubro, espero vê-lo novamente nesta ocasião!

Na redação da revista, há uma foto autografada de Jennifer Batten, datada de meados dos anos 90. Jenniffer escreveu “Keep on shredding!” Ainda é um bom conselho para um guitarrista?

Paul Gilbert: Ao estudar guitarra, conheci muitas técnicas diferentes para “fritar”. Todas soam de maneira diferente, há algumas que eu gosto e outras que não gosto. Então, talvez eu diga: Keep on shredding, se você conseguir fazer isso soar bem! E se não puder, entre na minha escola on-line na Artistworks. Eu vou ajudá-lo a melhorar!

Fabrizio Dadò

Yngwie Malmsteen, a volta do mestre
Aviso: se algum hater ou tolo ousar dizer algo de ruim sobre este mestre da guitarra nas mídias sociais da Axe Guitar Magazine, nós vamos caçá-lo como Liam Neeson em “Busca Implacável”…

Yngwie J. Malmsteen, nascido em 1963, expoente máximo e indiscutível do estilo rock neoclássico, estreou com Steeler (da banda homônima) em 1983, seguido no mesmo ano por No Parole From Rock ‘N’ Roll, do Alcatrazz, e Live Sentence em 1984. Fim da fase inicial.

A partir de então, Malmsteen seguiu uma carreira vitoriosa em produção, técnica, timbre e sentimento, com cerca de vinte álbuns solo, dos quais pelo menos um terço deveria aparecer na discoteca de qualquer guitarrista de rock, metal ou prog. Sim, porque na interminável explosão de notas cheias de calor e sabedoria que permeiam qualquer trabalho do sueco, naquele bend e naquele vibrato, o guitarrista apaixonado não pode deixar de sentir, além dos aromas de Bach, Vivaldi e Paganini, partes inconfundíveis da história da guitarra elétrica – Ritchie Blackmore e Jimi Hendrix acima de todos.

Três anos após o álbum anterior, o novo Blue Lightning (outro álbum da Mascot) é um poderoso tributo a músicas e músicos que fazem parte de sua formação, repetindo a experiência de Inspiration (1996) em uma frente mais bluesy. Se as fontes de inspiração foram principalmente Hendrix e Blackmore, em Blue Lightning encontramos faixas retiradas do repertório, novamente, de Hendrix (Foxey Lady, Purple Haze) e Deep Purple (Demon’s Eye, Smoke On The Water), mas também Beatles (While My Guitar Gently Weeps), ZZ Top (Blue Jean Blues), Rolling Stones (Paint Black) e Eric Clapton (Forever Man).

Há também quatro composições originais assinadas por Yngwie: 1911 Strut, Sun’s Up Top’s Down, Peace, Please e a faixa-título, que – juntamente com a capa baseada em relâmpagos – de alguma forma trouxe à minha mente o registro póstumo de Hendrix, Midnight Lightning (1975, Reprise, as partes da guitarra foram “finalizadas” por Jeff Mironov e Lance Quinn). Nas edições em vinil e CD Deluxe, há dois bônus: Little Miss Lover (Hendrix) e Jumping Jack Flash (Rolling Stones).

Malmsteen fez quase tudo sozinho e, embora sua performance vocal não seja tão boa, a intenção, o toque e o timbre da guitarra no disco são magistrais.

A chave interpretativa de todo o álbum é, obviamente, absolutamente malmsteeniana até o fim e com todos os méritos e excessos pelos quais o sueco é conhecido. O blues-rock quando sai de seus dedos certamente se torna algo diferente, uma mágica mistura euro-afro-americana – e não poderia ser diferente quando um gênero musical passa pela interpretação, não de um imitador, mas de um grande instrumentista.

Fabrizio Dadò


Originalmente publicado na revista Axe Guitar Magazine nº 15 – Traduzido e reproduzido por Musicosmos com autorização de Edizioni Palomino, Rome (Itália) – © Edizioni Palomino – Todos os direitos reservados.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor escreva seu comentário!
Por favor insira seu nome aqui