Mike Dirnt Road Worn Precision Bass

Há muito queríamos testar um baixo da série Fender Road Worn. Bem, na verdade queríamos escrever e publicar o teste, porque já havíamos tocado os dois modelos existentes até agora – Precision e Jazz Bass Road Worn – diversas vezes.

Muito já foi escrito sobre eles em fóruns na internet e revistas especializadas. Algumas pessoas não são a favor deste truque visual que envelhece artificialmente o contrabaixo mas há quem goste porque a sensação ao toque e ao olhar é agradável e estimulante e, por essa razão, deixa alguns baixistas mais à vontade com o instrumento.

Algumas pessoas dizem que este Precision tem um preço excessivamente alto para um instrumento feito no México e outros defendem o preço argumentando que a qualidade tem um preço, onde quer que seja a fábrica; mas há algo que poucos questionam e a grande maioria concorda: estes instrumentos soam muito bem, com uma referência sonora claramente clássica e vintage.

Uma prova disso é que eu já vi mais de um profissional de primeiro escalão tocando com um Road Worn, como Oteil Burbridge dos Allman Brothers (há vários vídeos no YouTube, e também um testemunho em seu site), ou nomes como Rubén Rubio, Tomás Merlo ou José Luis Jiménez, dos quais também há vídeos com um Road Worn na web. E tanto quanto sei nenhum deles é, nem nunca foi, um artista patrocinado pela Fender.

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Fender Road Worn

Depois de 3 anos com os modelos acima mencionados disponíveis no mercado e com uma aceitação mais do que notável, veio à luz mais um destes instrumentos, o Mike Dirnt Road Worn Precision Bass. Curiosamente, apesar do fato ter o nome Road Worn, a Fender inclui este instrumento em sua série Artist, porque é, antes de mais nada, um modelo signature do famoso baixista do Green Day. E isso é outra novidade: um baixo Road Worn e Artist Signature ao mesmo tempo.

Não é a primeira vez que a Fender faz um baixo patrocinado por Mike Dirnt, mas este está em uma faixa de preços já acima dos mil dólares. Até mesmo sua subsidiária Squier já deu origem a um modelo com o seu nome. Todos sempre são variações do formato Precision 1951-1955.

Neste recente lançamento, nota-se imediatamente uma certa semelhança com as abordagens usuais da Fender em relação aos instrumentos da Custom Shop, como o tratamento “relic” e a reprodução das características do baixo de um artista consagrado. Mas esse não é um baixo da Custom Shop… Obra do acaso? Não, e muito menos a ideia da Fender é transferir características construtivas do Custom Shop para produção em massa, para aqueles que não podem ou não querem gastar muito dinheiro. Se fossemos comparar com presuntos (NT: o autor é espanhol) diríamos não é um ibérico de bellota, mas é pata negra, e isso já é muito bom.

Permita-me que este artigo seja mais um relato de minhas sensações com as mãos, olhos e ouvidos ao tocar o baixo do que uma enumeração de características construtivas. É verdade que o primeiro tipo de artigo é subjetivo, mas o segundo pode ser encontrado em dezenas de sites, inclusive na própria página do fabricante e das lojas que vendem o contrabaixo.

Também não vou ressaltar algumas milongas inevitáveis nesses casos, onde o marketing desempenha um papel importante, como Mike Dirnt dizer ter passado dois anos para projetar o instrumento (será que ele viajou para a fábrica da Fender uma tarde a cada 8 meses?), ou ele destacar que este é o instrumento que ele está usando em turnê, pois parece óbvio que você tem que utilizar o produto que leva seu nome, ou não?

A partir deste momento eu vou esquecer que este é um contrabaixo apadrinhado, eu não darei nenhuma importância ao fato de parecer mais ou menos com algum dos muitos baixos vintage que este cavalheiro tem em sua coleção, e vou focar exclusivamente no instrumento. Além disso, a discrição com a qual a Fender decidiu marcar este baixo será de grande ajuda, já que além de uma estrela discreta na placa de união do braço com o corpo, não há mais sinais de assinaturas ou o nome de Mike Dirnt em nenhuma parte.

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A marcenaria do Road Worn

Primeira surpresa, assim que ponho as mãos no instrumento: é o primeiro baixo feito no México pela Fender que vem em um case, pelo menos que eu saiba. Este primeiro detalhe já sugere duas coisas. A primeira é que estamos lidando com um instrumento de ponta, porque a Fender cuida muito bem dessas coisas e na sua política de produto eles não dão ponto sem nó. Então, quando há um case, há um instrumento de alto nível dentro. A segunda: nós imaginamos que seja resultado da combinação de todos os itens acima, ou seja, este baixo não é um mexicano barato, é um mexicano de elite.

Segunda surpresa: seu peso parece ser em torno de quatro quilos, e quando o levamos à balança confirmamos, pois são exatamente 4,08 Kg. Outro sintoma de instrumento de qualidade, pois significa madeiras selecionadas.

Quero destacar esse detalhe porque é algo que venho observando ultimamente na marca californiana. Da série American Standard em diante, o peso de seus instrumentos tem diminuído nos últimos anos, um sinal de uma política ativa de seleção de madeira, especialmente nos baixos cujo corpo é de ash (freixo), pois o ash leve é swamp ash, que além de não pesar muito tem uma sonoridade melhor que o ash normal. Digo isso da série American Standard para cima, com uma exceção: a série Road Worn, em todos os seus modelos.

Continuando. O corpo é baseado na forma original do Precision de 1951 mas com algumas modificações a pedido de Mike Dirnt, sendo a principal delas é que em vez de ter o contorno tradicional, sem chanfros de qualquer tipo (o que em inglês se chama “slab body”), tem um contorno suave, especialmente para facilitar o apoio do antebraço.

O braço também segue o modelo Precision de 51, mas também foi suavizado levemente em sua espessura, para torná-lo mais confortável – mantendo ainda um pouco daquela sensação de ter na mão esquerda um “taco” de madeira.

Certamente haverá aqueles que se sentem desconfortáveis com estas modificações, pois para muitos modificam a essência do Precision mais clássico, então a polêmica amo/odeio está servida.

O exemplar que pudemos testar era branco com uma certa transparência que mostrava, não muito, o granulado do ash do corpo, o que esteticamente pode ter sua graça. O braço é de maple (acero) e a escala é de maple também. Existem outras opções, como o acabamento em sunburst de 3 cores e escala de rosewood, que podem ser combinadas em acabamentos e escalas, resultando em 4 modelos possíveis. Nas fotos você pode ver que o headstock, logicamente, tem a forma tipo Telecaster, correspondendo ao modelo que serviu de inspiração.

Um último fator absolutamente decisivo no som e timbre deste contrabaixo é o acabamento acetinado com uma camada muito fina de laca nitrocelulose. É um dos segredos, se não o segredo com letras maiúsculas, do som “envelhecido” destes instrumentos Road Worn.

Provavelmente muitos de vocês se perguntarão por que isso não é feito em outros instrumentos, como a série Vintage. Bem, parece que há uma explicação que também esclarece muitas outras coisas: verifica-se que esse tipo de acabamento tem restrições ambientais por parte do governo norte-americano, que não permite sua aplicação em grandes escalas produtivas. Por esse motivo, a fabricação é feita no México. Começamos a entender melhor agora? A fabricação no país da América Central não é “uma redução de nível”, mas uma necessidade produtiva. Se a madeira, a eletrônica, o hardware e os controles de qualidade são de alto nível, o instrumento que é obtido também é, e o país “de nascença” tem influência zero no produto final.

O nível de “relicagem” (envelhecimento) é bastante leve, então aqueles que não são adeptos desse tratamento são capazes de não vê-lo com olhos tão ruins. Agora, tem uma coisa… a tranquilidade que dá levá-lo por aí, ou ao ensaio, e acabar arranhando ou descascando! Com os Road Worn, não há problema, nada acontece!

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Ferragens e acessórios

Não vamos nos deter muito nas tarraxas vintage típicas destas reedições de baixos clássicos, no jack que está montado na lateral, como no original evocado, e na placa de metal que cobre o circuito e sobre a qual estão montados os controles de volume e de tone já típicos do Precision.

O que é significativo neste capítulo é a ponte, uma Badass II, que desempenha um papel importante no som do instrumento. Muitos de vocês saberão que esta ponte foi a que muitos baixistas nos anos 80 escolheram para substituir as pontes originais dos baixos dos anos setenta, principalmente Jazz Bass. É raro vê-la nesses Precision de 51, mas este é um exemplo de como um baixo “velho” pode ganhar em termos de sustentação e clareza com a utilização dessa ponte.

Há também o escudo de uma única camada, preto nos dois acabamentos disponíveis, o que confere uma personalidade muito atraente, principalmente no modelo branco pelo marcante contraste. Gosto não se discute, mas eu aposto que muitos vão concordar comigo que este baixo é muito bonito e que tem uma estética clássica chamativa até não poder mais, e que todos os olhos se viram para ele por sua combinação bem sucedida de cores.

Eletrônica

Trata-se de um baixo passivo (não seria nem necessário dizer, de qualquer maneira), volume e tone são os únicos controles e há um típico captador dividido Precision.

Típico? Split-coil em um 51? Na verdade usava-se um “single coil” na época, então esta é outra modificação. Melhor dizendo, outra melhoria.

Parece evidente como surgiu esse baixo: Mike Dirnt colocou na mesa a mãe de todos os baixos, um Precision 51, e disse aos caras do departamento de design da Fender: “Espero que o Sr. Leo Fender me perdoe, mas você vai remover isto e isto, mudar isto e este outro, e deixar todo o resto”. E eles fizeram isso! Embora, por favor, o Sr. Dirnt não queira nos fazer acreditar que levou dois anos para fazer isso, porque nós vamos pensar mal dele…

Voltando ao captador, a Fender o chama de Custom Vintage 59, e posso garantir que é outro dos pontos fortes do contrabaixo.

Como soa bem, que sinal, quão dinâmico, caloroso, redondo e rico nos médios! Um dos melhores pickups que a Fender atualmente coloca em seus instrumentos.

Eu suponho que ele foi enrolado especialmente para este modelo. Realmente um captador magnífico.

Tocando o Road Worn

A esta altura da leitura, você já está se perguntando como este Road Worn soa. Desta vez eu fiz o teste em um ambiente de estudo, com meu Mac e com uma interface simples (Firestudio, da Presonus). Eu toquei alguns play-backs de faixas de bateria e outras gravações de banda completa (rock e blues) silenciando a faixa de baixo, e assim eu toquei e gravei.

Pura nata, senhores. Quando um instrumento soa, me importa pouco se é feito no México ou em Marte. O timbre deste baixo é uma requintada combinação entre o mais puro som vintage e certas nuances que o complementam e realçam: alta saída na captação, um pouquinho de agudo e de sustentação que impede que o timbre engrosse (mérito da Badass II), o punch que é disparado pelo captador e o braço que projeta as notas como se estivessem saltando da própria escala. Eu imagino que a versão com escala de rosewood será mais contida e calorosa.

Os médios, o eterno calcanhar de aquiles do timbre dos baixos, que te dão a glória ou a miséria, são perfeitos neste instrumento.

Seja tocando com uma palheta ou com os dedos, há uma presença definida na mix, não se perde nenhuma nota. Mas essa definição não é alcançada pelos agudos, mas pelos médios, o que é algo bem diferente na disputa por espaço contra as guitarras. Grave robusto mas sem embolar e médios poderosos são o som de rock desde que foi inventado. Em ambas as faixas este baixo dá conta.

Do controle de timbre é possível esperar o típico: aberto, há brilho (veja, não é um baixo ativo nem serve para usos sofisticados), e fechado há graves roucos e abafados; e no meio há vários mundos para se desfrutar.

Quanto à digitação, é um baixo que dá uma sensação de solidez nas mãos. O braço, apesar de seu perfil C espesso, é confortavelmente percorrido, embora não seja exatamente um baixo para solistas de jazz. É simplesmente um baixo clássico muito bem construído, com melhorias que são apreciadas e que soa bem demais.

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Mike Dirnt e seu contrabaixo Road Worn Precision Bass

Conclusões

Eu já tinha esquecido que este é “o baixo do Mike Dirnt”. Será porque ele é um baixista que não me entusiasma? Será que é porque o instrumento soa tão “vintage” que eu quero comprar um? Porque ele tem esse toque de baixo “velho” sem me custar uma fortuna (mais de mil e menos de mil e quinhentos dólares nos EUA)?

Porque ouvi de novo o que gravei no teste e gosto mais cada vez que o ouço? Porque não importa o quanto você aumente as faixas de guitarra, o baixo ainda estará lá, destacado? Porque é tão bonito que até a minha mulher vai colocar menos resistência desta vez?

Veja bem, se um dia a Fender me fizer um baixo signature, eu gostaria que fosse assim… com a permissão do baixista do Green Day.

Jerry Barrios


Artigo original de bajosybajistas.com. Traduzido por Musicosmos e publicado sob licença de Magazine Bajos & Bajistas®. Todos os direitos reservados.


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