Chick-Corea-piano
Chick Corea. Foto Roland Godefroy [CC BY-SA 3.0], via Wikimedia Commons

Chick Corea (1941-) é um dos mais importantes pianistas/tecladistas da cena de jazz mundial desde que começou sua carreira, em meados dos anos 60.  Estava no grupo de Miles Davis que lançava as raízes do fusion, participando do lendário album Bitches Brew em 1970.

No início dos anos 70 lançou o grupo Return to Forever que teve duas abordagens: a primeira mais próxima da música brasileira com Airto Moreira e Flora Purim, além de Stanley Clarke e Joe Farrel; e a segunda mais próxima do jazz rock com Lenny White, Al Dimeola e o remanescente Stanley Clarke.

Nos anos 80 formaria outra super banda de fusion, a Chick Corea Elektric Band com Dave Weckl, John Patitucci, Scott Henderson – depois Frank Gambale – e Eric Marienthal. Corea poderia facilmente ser associado somente ao fusion, sendo um dos pioneiros e certamente um dos mais importantes expoentes do estilo mas essa compreensão não faz jus ao escopo de sua musicalidade.

Dentro do jazz acústico ele lançou discos que são referenciais como Tones for Joan’s Bones (1966). Now He Sings, Now He Sobs (1968), Cristal Silence (1973), My Spanish Heart (1976), Friends (1978), entre outros. Algumas de suas composições se tornaram standards do jazz como Spain, Windows, 500 Miles High, La Fiesta, Armandos’s Rumba, etc.

Além de jazzista, atuou eventualmente como pianista em peças do repertório clássico – sua predileção é por Mozart – e escreveu peças sinfônicas como Piano Concerto No.1 Spain for Sextet and Orchestra.

Three Quartets

Em 1981 Corea lançaria um LP chamado simplesmente Three Quartets. Para esse projeto ele chamaria dois de seus colaboradores preferidos para o jazz – Eddie Gomez e Steve Gadd – e para completar o quarteto Michael Brecker. Apesar do saxofonista mais frequente nos grupos de Chick Corea ser Joe Farrel, para esse projeto, que viria a ser o único dos dois juntos, ele chamou Brecker.

Three Quartets é um disco conceitual, onde nas palavras do próprio Corea, ele escreveu para um quarteto de jazz como se estivesse compondo para um grupo de câmara, como quarteto de cordas. São três quartetos cujos títulos são simples numerais e todos são o que se chamaríamos no jazz como longas composições – extended compositions. Cada peça tem em média 10 min de duração e para manter a integridade do Quartet No.2 que tem duas partes, no LP tínhamos no Lado A os quartetos 1 e 3 e no Lado B o quarteto 2.

No jazz, a expressão musical que se caracteriza primordialmente pela improvisação sobre um tema, é mais comum encontrarmos peças no formato canção, com estruturas próximas como AABA, AAB. ABC, etc. Para esse projeto, Corea utilizou estruturas próximas das formas de composição da tradição erudita como por exemplo: Introdução, Exposição, Desenvolvimento, Recapitulação, etc. Apesar das peças não se dividirem em capítulos, a estrutura composicional é perfeitamente perceptível. Ou seja, não há um só tema estruturado sobre o qual os músicos improvisariam.

De uma maneira extremamente hábil Corea coloca a improvisação jazzística como uma parte da peça, podendo ser qualquer uma delas, aparecendo as vezes na Introdução ou no Desenvolvimento, ou até na Coda, para simplesmente fechar a peça. Um elemento que permeia praticamente todas as peças são os voicings quartais, que traz um elemento dúbio à tonalidade, podendo ser percebido tanto como uma tonalidade maior, como menor. Esse elemento impressionista tornam os quartetos fluídos, não nos proporcionando a nítida sensação de retorno ao tom original de cada peça.

Os músicos

Outro elemento fundamental é a performance dos músicos, cada qual exercendo sua personalidade com total desenvoltura. Eddie Gomez utiliza a expressividade do baixo acústico para valorizar as linhas que não são simplesmente de acompanhamento, podendo ser contrapontísticas ou mesmo a melodia principal.

Steve Gadd tem na minha opinião o mais grooving shuffle do jazz, tornando as tercinas presentes na própria condução em vários momentos, além de fazer do último solo do disco um momento memorável. Michael Brecker está estupendo nos quartetos, com sua abordagem pós-coltraneana é responsável pelos momentos de clímax de tensão e virtuosismo do projeto.

Relançamento

Em 1992 Three Quartets foi relançado como CD pelo selo de Chick Corea, Strecht Records e distribuído pela GRP Records. Mesmo podendo ter lançado os quartetos na ordem, manteve-se a ordem original do LP e algumas faixas de bônus foram adicionadas. Essas foram gravadas apenas porque sobrou tempo de estúdio e foram mixadas apenas em 92 para o lançamento do CD que inclui ainda um duo de sax e bateria sobre o standard Confirmation de Charlie Parker com Brecker no sax e Corea na bateria.

As técnicas de composição para jazz apresentada por Corea no projeto Three Quartets abriu um caminho estético que ainda está por ser mais explorado, pois expande os horizontes composicionais do universo do jazz sem obscurecer a performance e a improvisação, elementos básicos da linguagem.

Abraços.

Saxofonista-AC
AC

Saxofonista com bacharelado em Performance na Berklee College of Music em Boston (1991) e mestrado em saxofone pela California Institute of the Arts (1993) e doutorado pela UNIRIO (2005) . Em Boston, ao se formar recebeu o prêmio Berklee Woodwind Performance Achievement Award. Entre os seus professores destacam-se Ernie Watts, George Garzone, Charlie Haden e Hal Crook. No Brasil já trabalhou com o Zimbo Trio, Alaíde Costa, Severino Araújo, Robertinho Silva, Paulinho Braga, Claudio Infante, Marcio Montarroyos, Adriano Giffoni, Victor Biglione, Nelson Faria, Nivaldo Ornellas,entre outros. Já gravou os albums Solari Jazz (1998), Brazilian Acid (2001), Soundscapes (2005), Naked Truth (2002), AC Jazz (2008), Atelier Jazz (2013), Ponte Aérea (2014) e AC Jazz Rio Blue (2015). Foi professor por cinco anos na Universidade Estácio de Sá lecionando Técnicas de Produção II e Introdução ao MIDI, Softwares de música e Workstations, Música Eletrônica e Síntese de Som, Produção Musical e Sonoplastia para Radio / TV e Harmonia. Atuou também professor substituto de saxofone da UNIRIO por dois anos, sendo responsável pelas aulas de saxofone e improvisação. A partir de 2011 assumiu como professor adjunto na Escola de Comunicação da UFRJ lecionando cadeiras ligadas à produção de audiovisual, sendo por uma ano Diretor de Graduação e Coordenador da Habilitação RTV. Atua também no Mestrado Profissional da Escola de Comunicação da UFRJ no programa de Mídias Criativas do qual foi um dos criadores e vice-coordenador por cinco anos. Em 2017, sua tese de doutorado foi lançada por duas editoras, uma na Europa e outra no Brasil, a CRV, com o título O Saxofone e a Improvisação Jazzística na Música Instrumental Brasileira.

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