A autoralidade e o desafio na Era do Streaming

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"Thainyl" de ATTANOMAT STUDIOLAB sob licença CC BY-NC-ND 4.0

Quem se lembra de comprar um LP e antes mesmo de ouvi-lo na íntegra já ter degustado todo o encarte? Onde, além do design gráfico ficava a ficha técnica, com músicos listados por faixas e por respectivos instrumentos, arranjador, regente, estúdio de gravação, técnico, produtor e em muitos casos até informações carinhosas como Cafezinho?

Quantas vezes não comprei um disco mais pela listagem de créditos da ficha técnica do que pelo artista que assinava a obra? Esse era o modus operandi da era analógica, onde os LPs eram o principal meio de consumo de música gravada.

Alguns estilos de música, como o jazz por exemplo, destacavam na própria capa do disco os nomes dos músicos, pois essa era uma das informações mais relevantes – podendo, em alguns casos, ser mais importante para quem comprava o álbum do que o repertório – elevando aqueles que eram coadjuvantes na sessão à posição de co-autores da obra.

No início dos anos 90 os CDs – Compact Disc Audio – substituíram os vinis como produto principal da indústria e, com a mudança da mídia, o espaço para informação de dados artísticos e técnicos diminuiu muito.

No primeiro momento, para os relançamentos de antigos discos, as gravadoras simplesmente reduziam proporcionalmente os dados da capa, contracapa e encarte com resultados grotescos, gerando caracteres que de tão pequenos chegavam a ser ilegíveis. Com o tempo a indústria se acomodou ao novo formato e algumas soluções foram desenvolvidas com espessos encartes (no caso da inserção de muitos dados) ou principalmente a criação de um novo padrão para as fichas técnicas no qual menos créditos eram inseridos. Muitas vezes não havia sequer listagem de todos os músicos por faixas, colocando os nomes de todos os participantes em um lista única sem especificar quem fazia o que e em que faixa. Do ponto de vista artístico já foi um perda considerável.

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Encarte de CD. Foto de Basora Studio. CC BY-NC 4.0

Voltando ao nosso exemplo do jazz, não havia mais espaço para colocar em destaque todos os músicos que participavam na capa frontal, ficando apenas o artista principal.

A era do CD duraria relativamente pouco em comparação com o vinil e já no início do século XXI o mercado fonográfico, já abalado fortemente pela duplicação e venda ilegal de CDs, iria se deparar com um desafio inimaginável: o mp3.

O novo formato permitia a transmissão de arquivos de áudio pela web. Numa tentativa de fazer frente ao compartilhamento irregular de arquivos musicais foi lançado pela Apple Inc. uma nova modalidade de compra e venda de música por faixa, sendo essas extraídas de um álbum, acabando com a integridade e com o conceito de álbum como obra artística. Nesse perfil de venda, não havia suporte físico. Portanto, não havia nem encarte. E mesmo o mp3 tendo a possibilidade tecnológica de se incluir dados – como os que ficavam nos encartes – dentro do próprio arquivo (metadados), não havia a preocupação de inclui-los e nem possibilidade de acessá-los facilmente por dispositivos portáteis (mp3 players).

Havíamos entrado na era na qual toda uma gama de artistas e técnicos fundamentais no processo de criação de um produto fonográfico passaram a não ter créditos ou mesmo serem percebidos. A única maneira de se descobrir algo era acessando a internet em websites dedicados à música ou em páginas dos próprios artistas, mas nem todos se preocupavam em dar crédito aos colaboradores.

No mais recente episódio na tentativa de se estabilizar o consumo de música gravada veio na forma de Streaming. Nesse formato, não se vende mais fonogramas mas sim o acesso a eles em plataformas que disponibilizam toda uma biblioteca a partir do pagamento de uma mensalidade. A verdade que esse modelo está, até o momento, se consolidando como um formato de consumo que agrada aos consumidores. Porém, as informações das antigas fichas técnicas desapareceram completamente. A maioria das pessoas acessa as plataformas de streaming via celulares e procuram o que ouvir pelo artista creditado no fonograma ou pelo título da música.

Outra forma são as playlists que podem ser geradas por Inteligência Artificial ou montadas pelos próprios usuários que podem disponibiliza-las para outros assinantes. Não há nem mais a obrigatoriedade da capa original do álbum ser mostrada ao usuário nem acesso aos metadados de um fonograma.

Voltando ao jazz como exemplo, após reclamações de artistas e usuários as plataformas começaram a incluir músicos junto com o nome do artista principal criando uma distorção e uma desinformação: 1 – o sideman (músico que contribui mas não é necessariamente o criador da obra) é listado junto, como um autor da obra; 2 – não há sequer informação sobre a natureza da contribuição do músico listado. Um caso de solução que acarreta mais confusão.

Tecnologicamente a solução seria simples, bastaria ter na tela uma opção para se acessar os créditos. O maior esforço seria incluir corretamente na base de dados os créditos de cada fonograma e permitir que nas ferramentas de busca esses dados possam ser acessados. Em uma indústria ávida por tecnologia e acesso à informação, um esforço que vale a pena artisticamente e até comercialmente pois músicos também tem seus fãs, que ao saberem que eles estão creditados podem procurar mais opções de faixas.


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AC

Saxofonista com bacharelado em Performance na Berklee College of Music em Boston (1991) e mestrado em saxofone pela California Institute of the Arts (1993) e doutorado pela UNIRIO (2005) . Em Boston, ao se formar recebeu o prêmio Berklee Woodwind Performance Achievement Award. Entre os seus professores destacam-se Ernie Watts, George Garzone, Charlie Haden e Hal Crook. No Brasil já trabalhou com o Zimbo Trio, Alaíde Costa, Severino Araújo, Robertinho Silva, Paulinho Braga, Claudio Infante, Marcio Montarroyos, Adriano Giffoni, Victor Biglione, Nelson Faria, Nivaldo Ornellas,entre outros. Já gravou os albums Solari Jazz (1998), Brazilian Acid (2001), Soundscapes (2005), Naked Truth (2002), AC Jazz (2008), Atelier Jazz (2013), Ponte Aérea (2014) e AC Jazz Rio Blue (2015). Foi professor por cinco anos na Universidade Estácio de Sá lecionando Técnicas de Produção II e Introdução ao MIDI, Softwares de música e Workstations, Música Eletrônica e Síntese de Som, Produção Musical e Sonoplastia para Radio / TV e Harmonia. Atuou também professor substituto de saxofone da UNIRIO por dois anos, sendo responsável pelas aulas de saxofone e improvisação. A partir de 2011 assumiu como professor adjunto na Escola de Comunicação da UFRJ lecionando cadeiras ligadas à produção de audiovisual, sendo por uma ano Diretor de Graduação e Coordenador da Habilitação RTV. Atua também no Mestrado Profissional da Escola de Comunicação da UFRJ no programa de Mídias Criativas do qual foi um dos criadores e vice-coordenador por cinco anos. Em 2017, sua tese de doutorado foi lançada por duas editoras, uma na Europa e outra no Brasil, a CRV, com o título O Saxofone e a Improvisação Jazzística na Música Instrumental Brasileira.

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