Onze Anos sem Michael Brecker

O dia 13 de janeiro de 2019 marca onze anos da passagem do saxofonista americano Michael Brecker (1949-2007). Conhecido por seus solos em discos de Chick Corea (1941-), Herbie Hancock (1940-), Paul Simon (1941-), James Taylor (1948-), etc., além de seus trabalhos solo (com várias indicações e prêmios Grammy) e a longa associação com seu irmão, Randy, no super-grupo The Brecker Brothers. Mas o fato é que Michael foi principalmente um Musician’s Musician, ou seja, um músico admirado principalmente pelos seus pares, que o reverenciaram como uma referência artística e profissional. Há uma playlist no serviço de streaming Spotify chamada Michael Brecker Sideman Sessions que lista 635 participações em canções de artistas variados que vão desde jazzmen como Horace Silver (1928-2014) até artistas como Diana Ross (1944-) e Michael Bolton (1953-), passando por artistas de várias partes do mundo como França, Suécia, Brasil, etc. Detalhe: todas essas participações são com destaque, com solos, nenhuma listada ele parece apenas no naipe de sopros. E essa playlist contempla apenas o que está disponível na plataforma, uma fração, pois só na minha coleção particular existem pelo menos 50 outras faixas que não estão na playlist.

Apesar de sua morte ser ainda recente em termos históricos, já nos permite voltar um olhar atencioso para as  características estilísticas do artista e assim analisar o músico dentro do contexto estético e comercial de sua carreira. Michael Brecker surge na cena musical no final anos 60. Um saxofonista influenciado pelo virtuosismo de John Coltrane (1926-1967), pelas harmonias de Wayne Shorter (1933-) e pela abordagem jazzy-blues  de Stanley Turrentine (1934-2000), entre outros. Mas Brecker, que se destaca nos discos com o grupo Dreams, absorve para o seu vocabulário fraseados e sonoridades do Rock dos anos 60 com músicos como Jimmy Hendrix (1942-1970) e cria uma ponte sonora entre o jazz e o rock que o ajudaria a ser um dos músicos mais requisitados nas próximas décadas.

Um fator muito relevante para se entender a carreira de Michael é a expansão do mercado para a industria fonográfica que aconteceu nos anos 70, conhecida como a Era de Ouro do Vinil. Com o mercado aquecido, a proliferação de toca-discos nas casas e principalmente os jovens consumindo discos como nunca, a industria precisava atender a essa demanda e nesse instante aparece o perfil profissional do músico de estúdio, músicos altamente qualificados que construíram a sonoridade da música pop da década de 70. Em uma entrevista Brecker conta que a gravadora Arista, que lançou os discos do grupo The Brecker Brothers, insistia para que eles fizessem turnês para promover os álbuns e Michael conta que não podia abandonar os trabalhos em estúdio pois perderia muito dinheiro.

Michael Brecker. Foto: Major Danby [GFDL or CC BY-SA 4.0], from Wikimedia Commons

O mercado americano de música é muito especializado, sendo difícil para um músico de um estilo atravessar fronteiras e atuar em vários segmentos de mercado tornando-se um crossover. Brecker foi exatamente um crossover, profissional que atuou com artistas muito diferentes, principalmente em estúdio mas também em apresentações ao vivo. Mas se essa versatilidade era bem vista pelo mercado, artisticamente era outra história pois até então músicos de jazz não tocavam com mega artistas do mercado pop como John Lennon, Elton John, etc. Com toda essa demanda o lançamento de um disco autoral ficou para o  ano de 1987. Mesmo sendo o disco  indicado ao Grammy de jazz, os círculos estritamente jazzísticos resistiam em reconhece-lo como um Jazz Giant

Por isso, mesmo sendo possivelmente o saxofonista mais importante das décadas de 70, 80 e 90 para os Saxofonistas, Brecker possivelmente jamais será reconhecido como um ícone como John Coltrane, Wayne Shorter, Stan Getz, etc., grandes saxofonistas de jazz, pois Michael foi além, atuando em álbuns históricos tão diferentes como Three Quartets de Chick Corea, Cityscapes com Claus Ogerman (1930-2016), 80/81 de Pat Metheny e Still Crazy After All These Years de Paul Simon, por exemplo. Mas se seu lugar no Jazz é contestado por puristas, para qualquer saxofonista Michael Brecker é mais que Hall of Fame, ocupando um espaço único na história e no desenvolvimento da linguagem do instrumento.

Saxofonista-AC
AC

Saxofonista com bacharelado em Performance na Berklee College of Music em Boston (1991) e mestrado em saxofone pela California Institute of the Arts (1993) e doutorado pela UNIRIO (2005) . Em Boston, ao se formar recebeu o prêmio Berklee Woodwind Performance Achievement Award. Entre os seus professores destacam-se Ernie Watts, George Garzone, Charlie Haden e Hal Crook. No Brasil já trabalhou com o Zimbo Trio, Alaíde Costa, Severino Araújo, Robertinho Silva, Paulinho Braga, Claudio Infante, Marcio Montarroyos, Adriano Giffoni, Victor Biglione, Nelson Faria, Nivaldo Ornellas,entre outros. Já gravou os albums Solari Jazz (1998), Brazilian Acid (2001), Soundscapes (2005), Naked Truth (2002), AC Jazz (2008), Atelier Jazz (2013), Ponte Aérea (2014) e AC Jazz Rio Blue (2015). Foi professor por cinco anos na Universidade Estácio de Sá lecionando Técnicas de Produção II e Introdução ao MIDI, Softwares de música e Workstations, Música Eletrônica e Síntese de Som, Produção Musical e Sonoplastia para Radio / TV e Harmonia. Atuou também professor substituto de saxofone da UNIRIO por dois anos, sendo responsável pelas aulas de saxofone e improvisação. A partir de 2011 assumiu como professor adjunto na Escola de Comunicação da UFRJ lecionando cadeiras ligadas à produção de audiovisual, sendo por uma ano Diretor de Graduação e Coordenador da Habilitação RTV. Atua também no Mestrado Profissional da Escola de Comunicação da UFRJ no programa de Mídias Criativas do qual foi um dos criadores e vice-coordenador por cinco anos. Em 2017, sua tese de doutorado foi lançada por duas editoras, uma na Europa e outra no Brasil, a CRV, com o título O Saxofone e a Improvisação Jazzística na Música Instrumental Brasileira.

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