Talking Heads e as diversas facetas do que é ser urbano

Minha ideia inicial era fazer uma seleção de 5 discos essenciais de Talking Heads, mas quis fazer diferente. Uma banda tão complexa, diversa e criativa precisa ser contemplada do início ao fim. Além disso, não é minha intenção reforçar os mesmos trabalhos da banda liderada por David Byrne – caso de seu disco de estreia, com o hit Psycho Killer, ou o elogiado Remain in Light, de 1980, que marca o auge da parceria com o produtor Brian Eno.

Resumidamente, a banda começou pelo interesse de Byrne e Chris Frantz na cena punk de Nova York. Eles convenceram Tina Weymouth, namorada de Chris, a tocar baixo, e estava formada a banda. Com a entrada do tecladista Jerry Harrison (que também tocava guitarra), os Talking Heads participaram da cena tocando no famoso clube CBGB (nova York), em 1975.

Tina Weymouth tocando contrabaixo com o Talking Heads na Horseshoe Tavern, em Toronto, no ano de 1978
Tina Weymouth tocando com o Talking Heads na Horseshoe Tavern, em Toronto, Maio de 1978. Foto Jean-Luc – CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Os executivos da Sire gostaram da performance e toparam bancar o primeiro disco. Mas, para quem esperava toda a agressividade punk, Talking Heads: 77 direciona a energia para um campo mais ameno, com groove, sátira, um tipo diferente de freneticidade. E, de diferentes formas, abordando o que é ser urbano.

Cosmopolita até o caroço

A partir da primeira faixa de 77, “Uh-Oh Love Comes to Town”, a banda declara-se cosmopolita até o caroço, temas que indiretamente rebatem em “Tentative Decisions” e “Don’t Worry About The Government” que, com sua levadinha de reggae-new-wave, menciona a força da individualidade perante o trabalho, os amigos, o “espaço por entre esta grande nação”. E, claro, tem “Psycho Killer”, uma figura de linguagem da paranoia coletiva.

More Songs About Buildings and Food (1978) marca o início da parceria com Brian Eno como produtor – e reforça o cosmopolitismo da banda logo de cara com “Thank You to Send Me an Angel”, em que Byrne surge a um intricado esquema de cordas dizendo “por que você não anda como eu?”. “Found a Job” e “Stay Hungry” listam situações como “perder tempo precioso” como fruto de uma imersão de um capitalismo que enfatiza o espírito competitivo.

Talking Heads em ação na Horseshoe Tavern, em Toronto, Maio de 1978. Foto Jean-Luc – CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

E, se estamos falando de cosmopolitismo, quer exemplo maior que “Cities”, uma das músicas mais marcantes de Fear of Music (1979)? São pequenas observações de cidades como Londres, Birmingham, El Paso e Memphis – todos na percepção de um metropolitano que vê “pontos positivos e pontos negativos” por locais que contempla. É muito comum que o ser citadino se incomode com o tédio que, mesmo indesejado, não deixa de estar presente. Por isso, quando Byrne canta, em “Heaven”, que o “paraíso é um lugar onde nada acontece”, exemplifica a indiferença com religião e espiritualidade na terra das correrias. O que queremos, então? Ele deixa bem claro logo nos primeiros versos: “todo mundo está tentando chegar ao bar/E o bar é conhecido como paraíso”.

O ser e a cidade são apresentados numa cortina obscura em Fear of Music. A estranha euforia de Byrne é o típico contraponto da ilusão, uma alegoria à iminente certeza de que as pessoas que jogam o jogo do capitalismo é que estão com razão.

Remain in Light assume um tom mais sarcástico nesse discurso, com destaque para “Once in a Lifetime”, que ainda hoje funciona como trilha sonora quando se aborda conformismo social.

Metrópoles utópicas

Com o passar dos anos, o Talking Heads pode ter assumido uma sonoridade mais “amena” – mas jamais deixou de abordar a insatisfação do que é viver em metrópole. Grande exemplo é “This Must Be The Place”, de Speaking in Tongues (1983), que encara o confinamento em casa de forma mais sentimental, triste. Como refúgio, Byrne imagina um lugar utópico em Little Creatures (1985), “bem, bem distante”, como canta em “Road to Nowhere”, onde somente coisas boas acontecem (“Perfect World”).

Esse campo imaginário passa a coabitar com o verdadeiro desejo de viver em paz após “fim da Guerra Civil e da Primeira e Segunda Guerras”, como diz Byrne em “City of Dreams”, de True Stories (1986). E, se ela estiver distante, tudo bem viver do jeito que dá, como aponta na punk “Wild Wild Life”.

No capítulo final de sua trajetória, os Talking Heads seguiram uma jornada em busca do Selvagem – tal qual um personagem de Admirável Mundo Novo após se deparar com a distopia generalizada do mundo de Ford. Tanta informação, apreensão, paranoia, medo, sonho e infelicidade levou a banda de Byrne a se despir em “Totally Nude”, em busca de seu próprio Eden:

“Porque, se eu quiser/Quem vai me parar/Sou absolutamente livre/Vivendo nas árvores/Com pássaros e abelhas/Porque sou um garoto da natureza.”

Jerry Harrison & David Byrne em 1978, em show dos Talking Heads
Jerry Harrison & David Byrne em 1978, Jay’s Longhorn Bar, Minneapolis. Foto de Michael Markos. CC BY-SA 2.0
Tiago-Ferreira
Tiago Ferreira
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Editor responsável do Na Mira do Groove, fã de jazz, hip hop, samba, rock, enfim, música urbana em geral.