Volume é uma coisa, pegada é outra

Coluna de estreia do baterista Rafael Javarro. Leia, comente, compartilhe e ajude-nos a fazer conteúdos cada vez melhores.

Todo baterista, principalmente quando começamos a estudar – ”começamos” porque eu me incluo nessa também – trava uma árdua batalha contra o volume do instrumento. Alguns não ligam se estão prejudicando a própria audição e deixando parentes e vizinhos um pouco mais surdos, há ainda quem diga que “faz parte”. Eu entendo que toda profissão tem seus riscos, mas você não precisa piorar a situação.

Tentando remediar, utilizamos de artifícios para resolver o problema com o volume, culpamos as paredes finas, colocamos o que pudermos para segurar o som: espuma, tapete, mais espuma e mais tapete; até a cortina grossa da vó entra na jogada. Dessa maneira você ajuda o vizinho, porém como fica a saúde do seu ouvido ou a dos seus companheiros de banda tendo que equalizar o volume dos outros instrumentos em cima dessa parede de barulho que produzimos?

A parada fica ainda pior quando estamos tentando executar algo em um tempo rápido, seja um groove ou virada. Parece que o quanto travamos o nosso músculo está diretamente relacionado ao número de bpm.

60bpm: beleza, tô relaxado. 120bpm: Eita, lascou-se, trava “tudo” os músculos porque o trem tá rápido! E o que acontece quando travamos músculos e ligamentos? A força que fazemos para conseguir executar uma simples ideia mais do que dobra e junto com a força, o volume também dobra. Aí aja protetor de ouvido no mundo para salvar sua audição dentro do quartinho cheio de tapete e espuma.

Mas tudo bem, eu entendo, alguns de vocês vão ler as linhas acima e me dizer: “Mas Rock’n Roll tem que ter pegada”, “O groove tem que tá firme”, “Então agora vou ficar alisando a bateria?!”.

Eu sei por que eu pensava assim também. E assim como 99,9% dos bateristas que começa estudar eu tinha CERTEZA que se eu conseguisse tocar mais rápido todos meus problemas seriam resolvidos. E o que aconteceu quando eu consegui tocar mais rápido? Eu só consegui tocar mais rápido. O volume continuou sendo um problema e para piorar eu não estava contente com o som que tirava da batera.

O que mudou completamente a minha visão em relação a todas as certezas que eu tinha sobre velocidade e volume foi o momento que percebi quão relaxados os bateristas que eu admirava, e ainda admiro, tocavam independentemente do quão rápido, ou estilo, ou quantidade de notas, não importava, todos e absolutamente todos estavam muito bem relaxados, mas com um som CHEIO e PRECISO.

Ou seja, para nenhum deles o bpm prejudicava a técnica, eles não ficavam tensos tocando músicas rápidas. Quer melhor exemplo que Nicko McBrain tocando “The Trooper” ou Kiko Freitas tocando “O Ronco da cuida” do João Bosco?

Confundimos Volume com Pegada, e é ai que mora o perigo. Volume é simplesmente o quanto de som você extrai do instrumento, e por questões de saúde é sempre bom ter um limite. Pegada por outro lado, está relacionado ao quão seguro, firme, preciso e coeso está o som que você extrai da bateria. Você pode tocar Miles Davis com a mesma pegada que você toca Pearl Jam, por exemplo.

A partir desse ponto eu mudei a estratégia de estudo. Velocidade não era mais meu objetivo, não que eu já estivesse tocando no bpm que eu “achava que tinha certeza” que resolveria a situação. Eu simplesmente percebi que antes de velocidade existia um mundo de outras coisas que deveriam ser abordadas e estudas antes de me preocupar o quão rápido eu tocava um rudimento. Coloquei como principais objetivos SONORIDADE e CRIATIVIDADE. Sim, criatividade, tem como você ampliar e melhorar sua criatividade.

O curioso foi que ao colocar esses objetivos como prioridade, o restante acabou acompanhando junto. Ao me preocupar com a sonoridade, por exemplo, comecei a explorar as possíveis dinâmicas que poderiam ser trabalhadas, mudar o posicionamento de tempo dos acentos, tocar um groove que normalmente tocaria em um alto volume o mais baixo possível sem perder andamento ou “engolir” notas.

Não vou fazer promessas heroicas, ou sequer dizer que foi fácil, mas depois que eu consegui virar essa chavinha, a diferença entre Volume e Pegada ficou mais clara. Os grooves ficaram mais coesos, os músicos com quem tocava na época notaram uma grande diferença. O mais engraçado foi que com esses novos horizontes que eu perseguia, minha técnica melhorou muito, passei a aumentar o bpm dos exercícios sem muita dificuldade e sem prejudicar a qualidade sonora do instrumento, e por causa disso comecei a ser chamado para outras gigs. Ou seja, passei de um baterista que só tocava Blink-182 no volume mil, para um baterista que também toca Blink-182, mas que percebeu que não precisava ser no volume mil e de quebra passou a ser chamado para tocar em shows e que iria RECEBER para isso, o que aos meus olhos era o ápice do profissionalismo.

O que percebo sobre isso tudo 16 anos depois? Velocidade não é tudo, e muito menos vai resolver alguma coisa. Sonoridade é parte crucial, afinal se não for agradável ao ouvido a tendência é você não ouvir. Tocar forte não ajuda, quem berra para ser ouvido é criança.

Segurança te traz tranquilidade, que por sua vez melhora, e muito, o como tocamos nosso instrumento. Se você pretende ser chamado para tocar demonstre profissionalismo, e isso envolve para nos bateristas, sermos capazes de tocar firme sem perder o andamento e conseguir groovar sem berrar mais alto que ninguém, simplesmente conseguir manter uma conversa harmoniosa com os outros instrumentos.

Se você gostou dessas ideias e quer colocar em prática, ou quer saber mais sobre o mundo das baquetas é só me acompanhar aqui no Blog, ou nas redes sociais.

Vou deixar o vídeo que disponibilizei no Youtube de como colocar essas ideias em prática.


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Rafael Javaro
Rafael Javaro trabalha como baterista profissional e educador musical de bateria e percussão há mais de 10 anos. Lecionou no Projeto Guri (Maior programa sociocultural da América Latina para crianças e adolescentes) entre os anos de 2012 e 2017. Estudou com grandes nomes da música brasileira como, Edu Ribeiro, Oscar (Bolão), Nailor Proveta, Sizão Machado, Kleber Almeida, Vinicius Dorin, Cesar Machado, dentre outros. Participou de projetos na Irlanda e nos Estados Unidos, sempre com o foco voltado ao aprimoramento musical.
Iniciou um canal no Youtube onde divulga aulas Gratuitas de Bateria e Ideias sobre como aprimorar os estudos.

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