Técnica, um meio, nunca um fim

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Foto de Charles B. Owen

Cássio Cunha. A superação de obstáculos, a descoberta do novo, do mais forte, do mais rápido, sempre foram desafios para a humanidade. Faz parte da natureza humana buscar sempre a superação.

A questão é, como isso funciona na arte? Em particular na música. Tudo gira em torno de um fenômeno que está diretamente ligado ao domínio do instrumento e os meios para tal. Estamos presenciando, agora mais do que nunca, com o advento das redes sociais, a proliferação de pessoas demonstrando seu dotes técnicos através dos seus respectivos instrumentos, e no caso da bateria com a qual tenho mais intimidade, a coisa virou um verdadeiro circo onde o objetivo está quase que totalmente relacionado à demonstração de habilidades técnicas, puramente falando.

A função do instrumento como meio de expressão musical parece que ficou quase que totalmente em segundo plano, o instrumento virou uma espécie de aparelho de malabarismos, se afastando e distanciando os jovens aspirantes a bateristas, de sua verdadeira natureza, que é a expressão MUSICAL através de um instrumento, também dito… musical.

A técnica deixou de ser um meio para se transformar em um fim. E isso é um tanto perturbador, pois coloca automaticamente a música como coadjuvante de quem a executa, quando na verdade deveria ser o contrário. Muitos jovens ficam se comparando aos outros instrumentistas tecnicamente, e deixam de aproveitar seu precioso tempo, ouvindo canções e entendendo a relação do instrumento com as mesmas.

Claro que isso não é algo generalizado, e nem tampouco podemos deixar de entender a importância da técnica, para que o músico consiga se expressar com clareza. Mas é exatamente essa a questão, entender a técnica como um meio para conseguir expressar sua música através do instrumento, e a beleza da música é que ela é generosa o suficiente para permitir que qualquer pessoa, mesmo com limitações técnicas, consiga muitas vezes resultados musicalmente mais interessantes do que outro que tem uma técnica mais sofisticada. Até porque entramos numa discussão sobre, o que é ser um músico técnico? Ou melhor, o que é técnica?

No  meu entender, técnica nada mais é do que a habilidade, e o entendimento sobre meios que otimizem ao máximo uma determinada ação.  E no caso da música, existe uma infinidade de possibilidades técnicas que não estão diretamente relacionadas a questões, como por exemplo velocidade, tão ambicionada pelos puristas da técnica. Exemplo disso é a enxurrada de vídeos com músicos tocando seus instrumentos e quebrando barreiras de velocidade, mas sem absolutamente nenhum compromisso com a música, na minha visão um paradoxo absurdo, afinal, pra que aprendemos a tocar um instrumento se não para tocar MÚSICA!?

Além disso, a técnica na música é muito mais complexa do que a simples habilidade de tocar rápido. É preciso técnica para tocar lento,  pra tocar com dinâmica muito suave, pra tocar forte sem gastar muita energia. É necessário muita técnica e controle para transitar em dinâmicas diversas, ou por exemplo pra tocar ritmos de complexa coordenação motora.

Enfim, técnica é muito mais do que   simplesmente colocar um metrônomo a 240bpm e ficar 5 minutos fazendo toques simples em semi-colcheias numa borracha de estudo.

Mas acima de tudo, não podemos esquecer que o foco deve ser sempre a música, e sempre haverá meios de se expressar musicalmente, desde que, entendamos que nada supera as boas IDEIAS, e para isso é preciso ouvir mais do que “falar”.

Enfim, a técnica deve ser apenas um meio para que possamos expressar nossas ideias com clareza, e acima de tudo, MUSICALIDADE.



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Cássio Cunha

Nascido em Recife-PE, Cássio Cunha começou tocando caixa na banda marcial do Colégio Salesiano de Recife. Em 1986 iniciou seus estudos no Conservatório Pernambucano de Música, aonde ficou até 1991. lá estudou com os professores José Gomes ,Severino Revorêdo, Geraldo Leite, Maestro Duda, Maurício Chiappeta e JedielFilho. Ainda durante seus estudos, começou sua carreira profissional tocando em grupos de música instrumental e acompanhando diversos artistas da região. Em1992 mudou-se para o Rio de Janeiro onde lecionou na escola de música In Concert por mais de dez anos. No Rio começou também suas pesquisas sobre música brasileira, lançando os livros IPC (Independência Polirrítmica Coordenada) eARB (Acentos Rítmicos Brasileiros) – Editora Multifoco.

Atualmente acompanha o cantor e compositor Alceu Valença e O Grande Encontro formado por Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

É também colunista da revista Modern Drummer Brasil e sócio proprietário do estúdio-escola Oficina de Bateria Brasileira em Copacabana.

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